segunda-feira, 7 de maio de 2018

Implodir

Implosão é aquilo que me é causado cada vez que tenho vontade de gritar palavras verdadeiras e doídas, mas que me sinto no direito apenas de reservar isso tudo a mim mesma. 
Se meus olhos pudessem não notar o que há em pequenos gestos, se minha boca se propusesse a pronunciar o que escondo ao selar os lábios, se esse cheiro não viesse a se acomodar em lembranças... tudo seria tão mais simples.
Meu corpo transpira ao anúncio da chegada, minha boca sorri descontrolada na possibilidade de tocarmos nossos corpos nesse conjunto em que marcas nos deixamos e depois relembramos ao olhar.
Mas minha pronúncia é tão falha quanto meus convites feitos e por você rejeitados, meu olhar é gasto a mesma maneira que sua distribuição de beijos pelas noites afora.
E nada há de sermos como somos quando deitadas a mesma cama por entre sussurros, afinal é somente isso, é somente o breve momento em que o toque delicado se mistura a mesma acidez que queima agora meu estômago fraco para verdades.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Em busca da Sanidade

Todos os dias ao acordar, o pensamento: Como será?
Hoje, enquanto tento administrar o tempo de 24h por dia, resumo meu sono, o pensamento acelerado me impede de dormir, me faz comer como se em poucos minutos não pudesse mais fazê-lo.
O computador quebra e a cabeça para por um breve segundo, seguido de muitas noites com maiores economias de sono, atraso leituras por não conseguir me concentrar.
Sou orgulho para algumas pessoas queridas, mas por vezes me perco de minha essência e deixo de ser meu próprio orgulho. O ano letivo se iniciou e eu já estou querendo encerrá-lo, minhas faltas já se encontram em números que não costumo me agradar, meu cansaço psicológico retornou logo após acabar as férias.
"Não preocupa-te" é a frase que repito toda vez que meus pensamentos vagueiam por possibilidades que me amedrontam, enquanto olho para pessoas queridas que possuem possibilidades menos amedrontadoras, enquanto penso em uma próxima chance para ter dinheiro, enquanto cozinho e vendo tortas de limão, esfirras, bolo, percebo alguns calos na minha mão e daí sim, carrego algum  orgulho de mim.
Ouço lamentos, tento economizar nos meus, não quero compartilhar minhas torturas, não quero mostrar a parte suja a qual esse mundo me apareceu por vezes incontáveis.
Encontro-me em desencontro diário, questiono-me dos questionamentos que me faço, distancio-me das distâncias que me alegram e acordo, após as poucas horas de sono que me obrigo a realizar.

sábado, 3 de março de 2018

Amor de Kanal

Aprendi a mesma técnica da dentista e apliquei-a num sentimento. 
Sabe quando a dentista cutuca o dente e diz matar o nervo? Que perfura repetidas vezes o mesmo local, numa dor incômoda, que aliás mais incomoda do que dói. 
Pois é, estou num tratamento de canal.
Demorei muito tempo para perceber como havia um canal a ser feito, num romance que eu acreditava ter cuidado bem, quase como os dentes que temos medo de cariar, pois então... 
Acreditava tanto ter feito todos os reparos necessários, considerei a reconstrução da vida, a mudança, considerei inclusive uma reviravolta que me traria um pouco de caos e acreditei, me mantive depositando cuidados a um você que já não merecia minha presença há um tempo. 
Fotografei nossos pés próximos, memorizei nossos carinhos, guardei suas palavras generosas, enalteci sua arte e ignorei sua ausência por incontáveis vezes, coloquei de lado as meias verdades completando-as com o que me soava mais agradável acreditar, considerei minha mudança atordoada, planejei vida conjunta.
Daí achei um buraco, não tinha mais outro jeito se não o tratamento de kanal, é com k mesmo, que melhor representa essa escrita que a ti será vazia, a mim toda preenchida com esse ar que entra num buraco de dente e dói.
Todos os dias, quase que num rito, me vejo atacando com uma agulha, esse nervo, que me dói num incômodo sem fim, mas repito, perfuro e novamente e de novo e mais uma vez, abro quase que um novo buraco e nele vou matando esse sentimento tão florido que construí numa ilusão.
Me torturo vendo o novo amor florescer em um você, esmago as chances de reconstituir nossa história, você em breve será um tratamento de kanal finalizado, tenho que matar esse sentimento pra parar de doer, pra poder voltar a mastigar a comida que tanto apreciava.
Grandes paixões sempre tiveram o dom de me fazer acreditar numa vida a dois e depois estragar a chance de viver isso em sua própria companhia e a ti reservo esse mesmo dom, que me faz agora estar nesse movimento incessante de perfurar o nervo, de matar, de fazer doer agora para que depois não sinta nada. 
Mas você também participou ativamente desse tratamento de kanal, você começou a perfurar quando descuidou de palavras que sabia que seriam importantes que eu as ouvisse vindas de ti ao invés de descobrir por fotos, quando lhe pedi por verdades, quando lhe pedi a presença específica e não soube me dizer as verdades que vive. 
Que desleixo, a dentista deve estar desapontada com esse dente meu, que descuidado meu deixar tanto doce se alojar num dente, que desatenção minha não perceber como você me mantinha escondida em sua vida.
Que absurdo a gente ter que fazer tratamento de kanal em um alguém, que absurdo.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mensagem aos que não sabem

A inspiração passa por mim quase que cotidianamente, numa brincadeira de pega-pega que as vezes cansa e desordena tudo que parecia estar em seu eixo.
De tantas vivências ensaiadas, pouco imaginava como seria a realidade e quando se vive, se sente, se toca com os dedos e com os sentidos, aquilo que está a seu alcance, se embala na dança daquela rotina que te rodeia.
Não sabem, aqueles que não vivem, quantas lágrimas derramei por conta dessa nova vida adulta que me invadiu e se instalou. Não se sabe sobre quantas noites sem trocas pelo dia, apenas não dormidas se fizeram e fazem presente em prol de minhas notas.
Também não se sabem quantas contas realizei, tentando administrar as desigualdades e injustiças que vivo em minhas condições materiais, para pagar contas. Não se fazem ideia sobre as dores físicas e psíquicas que minhas produções acadêmicas produzem em mim.
Não se querem saber sobre minhas verdades entaladas na garganta enquanto esboço sorrisos e espalho tentativas de soluções às pessoas e situações. Não se sentem sobre minhas olheiras, meu cansaço e meu descompasso durante o período em que só não consigo mais me mover.
Não se podem saber, pois nada os digo, não peço socorro e nem me desmancho frente aos que não sabem, não me movo em sentido inesperado e nem apareço com meu desespero, só me calo e me fecho e me guardo e me sinto e ressinto e desmorono apenas para mim, para dentro, num movimento distinto ao que acredito correto.
Depois de tudo, guardo as palavras, as minhas falas, minhas ideias, recolho meus materiais, meu corpo, minha empolgação e num suspiro bem meu, me embalo em mim voltando pra dentro aquilo que estava reaprendendo a colocar pra fora.
O mundo não é o avesso, mas a gente não consegue ser avesso do que dizemos ser "a sociedade", mantemo-nos sendo parte das inverdades que apontamos, direcionamos erroneamente nossa fala para a sociedade quando queremos gritar a nós mesmos.
A saúde mental é o ultimo buraco em que você recebe visita, mas muitas vezes é o primeiro na fila da vida adulta e universitária.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Inverdades presas

Ah... se o mundo soubesse das verdades que carrego entaladas em minha garganta, eu não mais teria tantos sorrisos que a mim se dirigem.
A impaciência se instaura em mim, minha garganta quer gritar o que escondo, meus olhos se fecham para que lágrimas não caiam e a respiração se perde entre suspiros contidos.
Esse injusto mundo ao qual vim parar, essas falas incoerentes parecem contas de matemática que não encaixam os números certos, é uma soma infinita de mentiras, uma teia que não se desfaz, que a cada novidade embala ainda mais quem se cerca.
Será que estou tão perdida em mim que não sou capaz de encontrar ao outro? Não consigo acreditar que seja possível afirmar tal questão, não posso ser tão voltada a meu mundo que me esqueço do outro.
Repito pelos dias todos de minha vida, que meus fazeres precisam ter um bocado de sentido com minha fala, a coerência precisa ser parte do meu caminhar, não posso mais agir diferente do que digo acreditar, mas por vezes perco o dom de me manter assim.
Essa calmaria perigosa a qual sou aliada, as vezes me espanta o quanto mantenho-me tentando centrar meus olhos, as vezes me espanto por deixar que falas tão exacerbadas invadam alguns outros jardins.
Quase imploro para que parem de mentir a mim, quase imploro para que se retratem, quase que imploro pela verdade que carrego em meu peito, quase deixo de implorar pela presença que em tantas vezes desejei ser verdadeira.
É, esse injusto mundo não cabe minha verdade a tantos que julgo em tom de parceria, então que todas essas inverdades se percam por outros caminhos, há quem siga no mesmo.

domingo, 10 de setembro de 2017

Um novo verso de uma universitária

Este é mais um espaço em que me desgasto.
Já repeti diversas vezes para quem tenha interesse em saber e a mim mesma que não tenho problema com a Universidade bancar a socialização de seus acadêmicos, mas me inconformo com as possibilidades desiguais que são dadas.
Poucos me dizem forte, muitos dirigem estas palavras a outros que tem a condição material bem encaminhada na vida. Mesmo que não pareça, mesmo que eu pereça, não vale falar nome algum, não vale denunciar, afinal qual é a prova que eu vou levar?
Todos os dias encaro o Sol quente de uma cidade interiorana, encaro os desafios de escutar piadas que ferem a boa parte do que sou, do que socialmente me disseram que sou, todos os dias eu escrevo por algumas horas em meu caderno, eu estudo, eu realmente me entrego.
Enquanto vejo notas sendo descartadas a quem faz uma boa cópia, a quem assina em baixo sem se quer saber qual o tema que aborda e eu não posso mais.
Por diversos momentos me calo querendo gritar, me tranco no quarto pra ninguém me ouvir chorar enquanto olho pra essa vida e penso: A Universidade não é pensada pra mim.
O que eu vejo é abuso, percebo pequenos atos corruptos, noto algumas malandragens e tantos outros que estão de sacanagem. E tenho a intenção de falar de cada um.
Sobre o abuso: é de poder, é de querer, é de desejar e é ainda de fazer um outro rir. Quantas vezes escutei piadas do meu cabelo, da minha negritude, da gordura que aparece pelo meu corpo inteiro, quantas vezes mais irei escutar que é preciso se cuidar? Quantas vezes engoli minhas palavras enquanto homens diziam sobre mulheres a desvalorizar? Não estou dentre os toques, o meu único toque tem sido o de me recolher, num ato tão agressivo ao meu verdadeiro ser.
Ai esses atos corruptos: Pobre, pobre e pobre. Mayra, você não pode. É aí que a gente se fode. Escuto piadas sobre as bolsas de assistência estudantil. Nesse ponto eu compro inimizades, porque cada um sabe de si a sua verdade, as suas mentiras, as suas verdadeiras conquistas "Não escolhe fulano pra tutor, ele vai te mandar fazer pesquisas". Tão querendo tudo fácil e pior, tem quem assine logo embaixo.
É malandragem, chego a pensar que só podem estar de sacanagem.
Eu não posso concorrer, eu não posso me meter "Tem certeza?" "Quanto mais quieta ficar, melhor pra você passar" "Já tá querendo causar...". E quero, quero jogar pelas paredes relatos, quero unir quem está aos migalhos, quero fazer minha voz ser lida já que não pode ser ouvida. Quero EU estar de sacanagem com essas patifarias.
A Universidade não é pensada pra você! Ela faz você se recolher, se abster e as vezes até enlouquecer. Se enfia em tudo, tenta essa bolsa, faz um trampo ali, tira uma grana aqui, tenho um projeto que você vai gostar, olha só essa aluna é de arrasar, você tem potencial, produza, produza, produza... reduza? Ninguém lhe diz reduza, quando carrega um nome adiante, ninguém lhe diz pra reduzir os estudos quando você tem dificuldades de parar.
A Universidade não foi pensada pra mim, e pra você, foi?

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nada disso é normal


Fonte: https://www.facebook.com/ogatoeodiabo/posts/876878072488267?pnref=story


A Universidade apresenta uma diversidade pra gente. Apresenta inclusive alguns "monstros" e a gente tem que saber quando se mostrar e quando se recolher, pra não agredir parte do que somos, do que acreditamos. As produções do saber em alguns momentos me parecem tapas na cara, os méritos me dão socos na boca do estômago e as pessoas me impressionam com suas ações tão distinta do que dizem. Viver com uma bolsa meritória também não é, viver sobrevivendo também não deveria ser.
Meus olhos cansados nunca são lembrados para redigir uma prova, minha mente inquieta não parece afetar a postura alheia, minha alma calma não demonstra o sentir que está por debaixo da pele. E cada vez mais me aproximo do que digo, na tentativa de ser extremamente verdadeira, mesmo quando testada por inverdades que surpreendem. 
Quantas vezes mais me calarei diante das inclusões mais excludentes que pude viver em minha pele? Quantas piadas doídas terei de escutar e engolir palavras que são capazes de alterar minhas notas? Quais portas abro e fecho quando digo o que escrevo em minha mente, sem pestanejar? 
Não é normal que uns tenham tantas condições materiais ofertadas, enquanto outra parcela se mantem mergulhada em trabalhos, dedicações, bicos e apagões... apagões da mente cansada, do psicológico abalado, do cansaço retomado!