sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mensagem aos que não sabem

A inspiração passa por mim quase que cotidianamente, numa brincadeira de pega-pega que as vezes cansa e desordena tudo que parecia estar em seu eixo.
De tantas vivências ensaiadas, pouco imaginava como seria a realidade e quando se vive, se sente, se toca com os dedos e com os sentidos, aquilo que está a seu alcance, se embala na dança daquela rotina que te rodeia.
Não sabem, aqueles que não vivem, quantas lágrimas derramei por conta dessa nova vida adulta que me invadiu e se instalou. Não se sabe sobre quantas noites sem trocas pelo dia, apenas não dormidas se fizeram e fazem presente em prol de minhas notas.
Também não se sabem quantas contas realizei, tentando administrar as desigualdades e injustiças que vivo em minhas condições materiais, para pagar contas. Não se fazem ideia sobre as dores físicas e psíquicas que minhas produções acadêmicas produzem em mim.
Não se querem saber sobre minhas verdades entaladas na garganta enquanto esboço sorrisos e espalho tentativas de soluções às pessoas e situações. Não se sentem sobre minhas olheiras, meu cansaço e meu descompasso durante o período em que só não consigo mais me mover.
Não se podem saber, pois nada os digo, não peço socorro e nem me desmancho frente aos que não sabem, não me movo em sentido inesperado e nem apareço com meu desespero, só me calo e me fecho e me guardo e me sinto e ressinto e desmorono apenas para mim, para dentro, num movimento distinto ao que acredito correto.
Depois de tudo, guardo as palavras, as minhas falas, minhas ideias, recolho meus materiais, meu corpo, minha empolgação e num suspiro bem meu, me embalo em mim voltando pra dentro aquilo que estava reaprendendo a colocar pra fora.
O mundo não é o avesso, mas a gente não consegue ser avesso do que dizemos ser "a sociedade", mantemo-nos sendo parte das inverdades que apontamos, direcionamos erroneamente nossa fala para a sociedade quando queremos gritar a nós mesmos.
A saúde mental é o ultimo buraco em que você recebe visita, mas muitas vezes é o primeiro na fila da vida adulta e universitária.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Inverdades presas

Ah... se o mundo soubesse das verdades que carrego entaladas em minha garganta, eu não mais teria tantos sorrisos que a mim se dirigem.
A impaciência se instaura em mim, minha garganta quer gritar o que escondo, meus olhos se fecham para que lágrimas não caiam e a respiração se perde entre suspiros contidos.
Esse injusto mundo ao qual vim parar, essas falas incoerentes parecem contas de matemática que não encaixam os números certos, é uma soma infinita de mentiras, uma teia que não se desfaz, que a cada novidade embala ainda mais quem se cerca.
Será que estou tão perdida em mim que não sou capaz de encontrar ao outro? Não consigo acreditar que seja possível afirmar tal questão, não posso ser tão voltada a meu mundo que me esqueço do outro.
Repito pelos dias todos de minha vida, que meus fazeres precisam ter um bocado de sentido com minha fala, a coerência precisa ser parte do meu caminhar, não posso mais agir diferente do que digo acreditar, mas por vezes perco o dom de me manter assim.
Essa calmaria perigosa a qual sou aliada, as vezes me espanta o quanto mantenho-me tentando centrar meus olhos, as vezes me espanto por deixar que falas tão exacerbadas invadam alguns outros jardins.
Quase imploro para que parem de mentir a mim, quase imploro para que se retratem, quase que imploro pela verdade que carrego em meu peito, quase deixo de implorar pela presença que em tantas vezes desejei ser verdadeira.
É, esse injusto mundo não cabe minha verdade a tantos que julgo em tom de parceria, então que todas essas inverdades se percam por outros caminhos, há quem siga no mesmo.

domingo, 10 de setembro de 2017

Um novo verso de uma universitária

Este é mais um espaço em que me desgasto.
Já repeti diversas vezes para quem tenha interesse em saber e a mim mesma que não tenho problema com a Universidade bancar a socialização de seus acadêmicos, mas me inconformo com as possibilidades desiguais que são dadas.
Poucos me dizem forte, muitos dirigem estas palavras a outros que tem a condição material bem encaminhada na vida. Mesmo que não pareça, mesmo que eu pereça, não vale falar nome algum, não vale denunciar, afinal qual é a prova que eu vou levar?
Todos os dias encaro o Sol quente de uma cidade interiorana, encaro os desafios de escutar piadas que ferem a boa parte do que sou, do que socialmente me disseram que sou, todos os dias eu escrevo por algumas horas em meu caderno, eu estudo, eu realmente me entrego.
Enquanto vejo notas sendo descartadas a quem faz uma boa cópia, a quem assina em baixo sem se quer saber qual o tema que aborda e eu não posso mais.
Por diversos momentos me calo querendo gritar, me tranco no quarto pra ninguém me ouvir chorar enquanto olho pra essa vida e penso: A Universidade não é pensada pra mim.
O que eu vejo é abuso, percebo pequenos atos corruptos, noto algumas malandragens e tantos outros que estão de sacanagem. E tenho a intenção de falar de cada um.
Sobre o abuso: é de poder, é de querer, é de desejar e é ainda de fazer um outro rir. Quantas vezes escutei piadas do meu cabelo, da minha negritude, da gordura que aparece pelo meu corpo inteiro, quantas vezes mais irei escutar que é preciso se cuidar? Quantas vezes engoli minhas palavras enquanto homens diziam sobre mulheres a desvalorizar? Não estou dentre os toques, o meu único toque tem sido o de me recolher, num ato tão agressivo ao meu verdadeiro ser.
Ai esses atos corruptos: Pobre, pobre e pobre. Mayra, você não pode. É aí que a gente se fode. Escuto piadas sobre as bolsas de assistência estudantil. Nesse ponto eu compro inimizades, porque cada um sabe de si a sua verdade, as suas mentiras, as suas verdadeiras conquistas "Não escolhe fulano pra tutor, ele vai te mandar fazer pesquisas". Tão querendo tudo fácil e pior, tem quem assine logo embaixo.
É malandragem, chego a pensar que só podem estar de sacanagem.
Eu não posso concorrer, eu não posso me meter "Tem certeza?" "Quanto mais quieta ficar, melhor pra você passar" "Já tá querendo causar...". E quero, quero jogar pelas paredes relatos, quero unir quem está aos migalhos, quero fazer minha voz ser lida já que não pode ser ouvida. Quero EU estar de sacanagem com essas patifarias.
A Universidade não é pensada pra você! Ela faz você se recolher, se abster e as vezes até enlouquecer. Se enfia em tudo, tenta essa bolsa, faz um trampo ali, tira uma grana aqui, tenho um projeto que você vai gostar, olha só essa aluna é de arrasar, você tem potencial, produza, produza, produza... reduza? Ninguém lhe diz reduza, quando carrega um nome adiante, ninguém lhe diz pra reduzir os estudos quando você tem dificuldades de parar.
A Universidade não foi pensada pra mim, e pra você, foi?

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nada disso é normal


Fonte: https://www.facebook.com/ogatoeodiabo/posts/876878072488267?pnref=story


A Universidade apresenta uma diversidade pra gente. Apresenta inclusive alguns "monstros" e a gente tem que saber quando se mostrar e quando se recolher, pra não agredir parte do que somos, do que acreditamos. As produções do saber em alguns momentos me parecem tapas na cara, os méritos me dão socos na boca do estômago e as pessoas me impressionam com suas ações tão distinta do que dizem. Viver com uma bolsa meritória também não é, viver sobrevivendo também não deveria ser.
Meus olhos cansados nunca são lembrados para redigir uma prova, minha mente inquieta não parece afetar a postura alheia, minha alma calma não demonstra o sentir que está por debaixo da pele. E cada vez mais me aproximo do que digo, na tentativa de ser extremamente verdadeira, mesmo quando testada por inverdades que surpreendem. 
Quantas vezes mais me calarei diante das inclusões mais excludentes que pude viver em minha pele? Quantas piadas doídas terei de escutar e engolir palavras que são capazes de alterar minhas notas? Quais portas abro e fecho quando digo o que escrevo em minha mente, sem pestanejar? 
Não é normal que uns tenham tantas condições materiais ofertadas, enquanto outra parcela se mantem mergulhada em trabalhos, dedicações, bicos e apagões... apagões da mente cansada, do psicológico abalado, do cansaço retomado!

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Com dores no peito, um suspiro já é suspeito.
Não há respeito ao meu fazer, a minha aprendizagem e meu permanecer.
Sorrio com tantas lágrimas guardadas, que seria impossível utilizar um conta gotas.
É raiva. Indecência fingindo de inocência. Ah... mas isso tem sobrando, cara de pau fala que é pobre, mas você vê que vive esbanjando.
Meu armário é sempre garantido comida, não aceito ter dor de fome em minha barriga. Mas também não aceito a dor de pensar que não tenho o conforto de me embebedar como alguns que se banham em copos de cerveja, em todos os finais de semana.
Sou de outra terra, onde a gente corre pra não ficar em listas de espera e de nada isso me adiantou, no sentido de auxílio moradia que a mim não contemplou.
A Universidade é pensada pra pessoas diferentes de mim, as vezes chego a crer que seja pra quem é encostado sim. Tem quem passe por ser carregado, arrastado, mas não liga de não ser diferenciado.
Foi lançado mais um edital, onde não pode se inscrever quem tenta ter alguma moral. Isso as vezes me causa uma dor que é animal, dói a boca do estômago e eu quase que passo mal. É realmente desleal, enquanto transcrevo entrevistas, um outro ganha o dobro da quantia por um um relatório mensal.

terça-feira, 27 de junho de 2017

De outra terra

Aqueles olhos claros e vidrados na vida me faziam perder o conteúdo compartilhado, suas mãos falavam às minhas, seu corpo inquieto parecia pedir para que o meu se aproximasse mais.
Enquanto as palavras saiam de seus lábios, sem tintura aparente, um som se fazia em seu sotaque vagaroso e carregado de delícias que só se sabe quando se escuta e meus olhos sempre atentos aos teus, minha boca pronta para pronunciar teu nome seguido de alguma palavra que aproximasse-nos, minhas mãos em espera por tocar seu rosto pálido e meu corpo em mutação de posição, ora direcionando a ti, ora fugindo de seu olhar.
Me retraí em demasiado com receio que seus lábios não tivessem anseio pelos meus, me voltei para meus próprios olhos no espelho, enquanto delineava as curvas de meus lábios com um tom avermelhado, num desejo urgente por borrar a cor com beijos nossos.
Mas mantive guardado meu desejo por ti, por tempo suficiente a não conseguir concretizá-lo. Meus dedos ágeis buscaram por ti por entre redes que acreditamos sociabilizar-nos e encontrei, com um sorriso bem marcante como o que encarei desde o primeiro dia que olhei as belezas daquela cidade. Escrevi-lhe apenas na certeza de que não precisaria olhar seus olhos profundos e na incerteza de qual seria a resposta enviei o olá mais conectado as verdades de meu desejo.
Se soubesse de sua inquietude e seu olhar direcionavam-se a mim, talvez meus lábios teriam se pronunciado de maneira mais ágil que meus dedos com palavras, meus lábios quem sabe teriam tocado os seus e eu poderia então dizer que conheço o sabor de sua terra, talvez meu corpo teria se aquietado perto do seu por um instante inesquecível e incansável.
Mas guardo suas palavras por entre meu desejo e tento fazer com que novamente haja um instante para nos borrar com meu batom avermelhado.   

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Minha cara amiga branca


A solidão é uma dança que ora queima nossos pés numa valsa triste, ora nos faz sambar com um sorriso estampado no rosto. Mas hoje é uma dor, hoje é sofrimento que faz arder para além de meus pés, adormecendo minhas pernas escuras.
Os meus fios de cabelo, que de tempos pra cá vem me fazendo mais eu, tem se desapontado com meu olhar e se rebelando a qualquer mistura que nele eu passe. Minha pele se amarela a cada vez que nego minha ancestralidade. A cada negação do meu corpo, me firo e renego uma parte do que sou.
Em todas essas escolhas que faço de negar-me, minha cara amiga branca está comigo, mesmo quando  não deseja, a sua pele clara, seu sorriso estonteante, seus longos cabelos desmaranhados e seu físico proporcional, se fazem presente. Em meus pensamentos, em minha lembrança, em um ponto de referencia para a beleza desse mundo desordenado, minha cara amiga branca se faz presente.
Não se ofenda, apesar de que em alguns momentos eu gostaria de atingir-te com palavras que pudesse ser dolorosas tanto quanto as ofensas por debaixo dos panos, que sinto em mim. Por vezes gostaria que pudesses entender como me sinto, gostaria que sentisse em sua pele a dor da minha cor, a dor pela minha forma física, a dor pelo meu cabelo e a dor pelo meu olhar para a vida, mas a verdade é que somos o que somos e nada seria possível fazer, para que sentisse minhas dores. Mas não se ofenda com minha escrita, quero apenas que reflita.
A ultima opção é sempre doída, como se não houvesse nenhuma outra maneira de expressar a realidade de seu desejo, você faz uma escolha que parece até mesmo um tanto inconsequente, e as vezes é mesmo.
Meus olhos sempre varrem os ambientes, sempre buscam pares e eu os encontro, não para mim, não para mulheres negras, gordas e com o sorriso que nada igual a minha cara amiga branca. Quando vejo um par que me deixe de ser ímpar, a sua beleza branca chega e desfaz a possibilidade, o olhar insensível do outro me ignora, pelo simples fato de ser quem sou, de como sou. Meu corpo gordo, meu cabelo crespo, minha cor, meus lábios grandes... esses são os fatores que fazem o outro me olhar de uma maneira ou outra, me sexualizando, ignorando ou determinando como ultima possibilidade.
A minha solidão tem muito a ver com os pares alheios, tem muito porque de como dizemos a palavra gorda e negra.
Então, minha cara amiga branca, enquanto seu ego é apenas inflado e compartilhado, meus olhos se enchem d'água e meu coração se fecha para novas possibilidades de transformar meu olhar ou de outrem, de maneira mais generosa.